
24/10/2026
PREAMBULANDO NO MASSACRE
O Massacre da Noite de São Bartolomeu (24 de agosto de 1572) não foi apenas uma explosão espontânea de fúria religiosa popular, mas um cálculo político complexo com motivações que vão além da simples briga de fé.
NÃO FOI UMA REVOLTA POPULAR ESPONTÂNEA
Pesquisas históricas mostram que o massacre não foi uma multidão católico-romana que enlouqueceu de repente. Ele foi organizado de forma cirúrgica pelas elites urbanas, milícias locais e autoridades que queriam eliminar os líderes calvinistas (huguenotes), seguidores da linha protestante do teólogo francês Jean Calvino.
DISPUTA DE PODER E GEOPOLÍTICA (NÃO SÓ RELIGIÃO)
Embora a fé tenha sido usada como combustível e justificativa moral, o pano de fundo era a luta pelo controle da Coroa Francesa entre facções nobres rivais (como a família Guise, católica, e os Bourbons, protestantes). A religião era o verniz para a sobrevivência do Estado e do trono.
AS GUERRAS RELIGIOSAS E A REFORMA PROTESTANTE
A França vivia as chamadas guerras religiosas, com oito episódios confrontando católicos e reformadores entre 1560 e o fim do século 16.
Dentre os principais nomes do movimento que acabaria reconhecido como reforma protestante, o teólogo francês João Calvino (1509-1564) acabaria se tornando importante também para justificar não só uma nova religião, mas também o sistema econômico que, nascido dos escombros do feudalismo, tornou-se dominante do mundo contemporâneo: o capitalismo.
O ENCONTRO ENTRE O CALVINISMO E O CAPITALISMO
"Quando calvinismo e capitalismo se encontram é o casamento perfeito, pois ambos possuem afinidades eletivas, ou seja, a mesma lógica de funcionamento", argumenta o historiador e teólogo Gerson Leite de Moraes.
"Ambos valorizam o trabalho e reinvestem o fruto do trabalho em mais trabalho. O que, em última instância, gera acúmulo de capital."
Mesmo que a motivação seja diferente, o foco tanto do religioso calvinista como do inveterado capitalista é o mesmo: o trabalho
SANTO MÁRTIR
A noite do episódio celebra São Bartolomeu, como ficou conhecido no catolicismo Natanael, um dos 12 apóstolos de Jesus.
Segundo a tradição, ele teria sido martirizado quando atuava como pregador na Índia, no ano 51 da era cristã. E sua morte teria ocorrido de forma violenta, por esfolamento — por isso ele é assim representado, segurando a própria pele, na Capela Sistina, na obra-prima de Michelangelo (1475-1564).
"O suposto mártir São Bartolomeu acabaria, pela data, associado a esse martírio dos calvinistas no século 16", compara Moraes.
"Uma morte muito violenta que gerou veneração a um santo, ligado pela data a mortes muito violentas 450 anos atrás."